Os caminhos da música através da tecnologia

A indústria da música sofreu e vem sofrendo alterações constantes em decorrência dos avanços tecnológicos. Isso não é novidade para ninguém. As intervenções da tecnologia no mundo da música acontecem desde a década de 80. Junto com o surgimento da música eletrônica e do “boom” dos sintetizadores.

Hoje em dia é quase impossível pensar na produçãoveiculação e consumo da música sem que passem por algum recurso tecnológico como softwares, computadores e canais de streaming.

As mudanças são tantas, que uma única pessoa consegue realizar todas as etapas de produção musical. Antes feitas por vários profissionais. Há quem acredite que o fato de não ter fundamentos teóricos sobre música pode ser uma desvantagem, mas ter conhecimento em técnicas de manipulação de objetos sonoros torna essas mesmas pessoas “produtores musicais independentes”, pois além desses conhecimentos em sistemas capazes de reproduzir samplers de instrumentos acústicos e sintetizadores, eles também contam na maioria da vezes com um home studio para a criação de suas novas composições.

Produção independente

A facilidade de se produzir música proporcionada por esses estúdios caseiros faz com que o valor de investimento necessário para a criação de uma composição musical, que tenha o mesmo padrão de qualidade de um estúdio profissional, seja bem menor. Essa questão de redução dos custos acaba chamando a atenção de artistas e bandas independentes. Porque muitas vezes eles acabam adquirindo equipamentos que possibilitam uma maior autonomia na criação de suas canções.

Seguindo a tendência mundial, a utilização crescente de inteligência artificial para a composição de novas músicas tem deixado a indústria fonográfica em alerta e feito com que ela se adapte as novas necessidade do mercado, isso para que não acabe perdendo espaço para os sistemas inteligentes que oferecem as mesmas possibilidades já conhecidas, mas sem a necessidade ativa de intervenção humana durante o processo de produção.

Quando a tecnologia virou compositora

A cantora Taryn Southern lançou em 2017 o álbum “I AM IA”, que chamou bastante atenção por ser considerado o primeiro álbum produzido totalmente por um software de inteligência artificial. A produção foi feita usando o site Amper, que funciona como um gerador de música open source. Tudo o que ela precisou fazer foi colocar a duração, o tempo e o tom desejados. Esperar enquanto o sistema construía as composições e produções e “voilà”. Após a conclusão da criação dos samplers, Taryn reestruturou as partes geradas e incluiu a gravação de sua voz. Dá só uma olhada no resultado:

Para muitos essa perda da participação humana na composição musical, devido o uso de tecnologia, gera dúvidas quanto a aceitação dessas produções como sendo música. Os “artistas tradicionais” acreditam que a canção perde sua essência, já que a criação foi feita através de softwares e algoritmos. Ela acaba se transformando em um banco de dados digitais.

Quando cantou “Eu vejo o futuro repetir o passado”, Cazuza quis reforçar algo que sempre foi uma tendência na sociedade. Pegar algo que está ultrapassado e transformá-lo em algo novo, não é uma novidade. Com as inúmeras possibilidades criadas pelos avanços tecnológicos, seus novos modelos de produção e de reprodução da música, muita gente acha que os formatos tradicionais como vinil e fita k7 seriam totalmente deixados para trás, mas isso não é verdade.

O retorno dos LP`s e do K7

Quem passou pelas décadas de 70, 80 e 90, provavelmente, ouviu suas músicas em vitrolas ou walkmans. Com toda certeza, assim como acontece no mundo da moda onde tudo o que já foi tendência um dia volta. A mesma coisa tem acontecido na indústria da música. Movimentos recentes tem demonstrado que o ultrapassado agora é “cult” e que os aparelhos que estavam sumidos das lojas por não terem mais utilidade estão de volta nas prateleiras a preços bem acima da média. Possivelmente, pela alta procura e a baixa disponibilidade.

O fato de cada vez mais se produzir música usando tecnologia como softwares e inteligência artificial, e da sua divulgação ser através de canais de streaming, redes sociais e outras plataformas que permitem o upload de áudios como o Soundcloud, nos deixa surpresos quando nos deparamos com produções nos formatos analógicos, que parecem ter se tornado os queridinhos de artistas e produtores quando o assunto é ser diferente e trazer velhos hábitos de volta.

A ideia tem tomado proporções tão grandes que as fábricas que não produziam as fitas k7 e LP’s há mais de 20, 30 anos retomaram as fabricações e vendas. Graças à grande exigência do mercado. Para comprovar esse novo fluxo, pesquisas de 2016 mostram que a venda dos vinis aumentou 20% , com cerca de 150 mil unidades vendidas. Levantamentos realizados no Reino Unido mostram que de 2016 para 2017 o aumento foi de 35% nas vendas de fitas K7 com um total de 174 mil unidades.

A nova manobra está sendo usada como estratégia na tentativa de chamar a atenção dos fãs. Sem dúvida, por proporcionar uma experiência diferente na forma de se consumir música, vivendo na era digital.

A experiência do vintage

Só quem viveu naquela época sabe como é comprar um vinil ou uma fita k7. A sensação poder pegar o álbum na mão, ver a arte da capa, poder ler as letras das músicas e as fichas técnicas no encarte e fazer com que o ouvinte coloque a música para tocar em um aparelho como uma vitrola ou um walkman. Tudo Isso deixa a experiência mais rica e saudosista. Além de ser totalmente diferente de ouvir a música em um celular ou no computador.

É obvio que existem algumas características com relação a sonoridade que não são do agrado de todos. Isso pode ser explicado pelo fato que maioria das pessoas já se acostumou a ouvir gravações com um áudio limpo e nítido, mas para os apaixonados por tudo o que é vintage essas “imperfeições”, como os ruídos e o som abafado, são o que carregam o charme e a tradição da música.

Prova de que essa tendência está ganhando força e movimentando a indústria, são as superproduções que resolveram abraçar a ideia.

Guardiões da Galáxia

O filme “Guardiões da Galáxia” foi lançado em 2014. Ele chamou bastante atenção quando o personagem Peter Quill, interpretado por Chris Pratt, apareceu ouvindo música em um walkman da Sony. Isso influenciou na produção de fitas k7 com a trilha sonora volume 1 “Guardians of the Galaxy: Cosmic Mix”. O sucesso foi tanto que posteriormente foram lançados “Guardians of the Galaxy: Awesome Mix” e “Guardians of the Galaxy, Vol. 2” no formato retrô A venda dos três volumes foram de aproximadamente 39 mil unidades.

 

Stranger Things

A série “Stranger Things” ficou mundialmente conhecida por contar a história de um grupo de crianças e acontecimentos estranhos na década de 80. A produção entrou na onda e lançou suas trilhas sonoras em fita k7 e vinil. Todas as artes como capas, pôsteres e até o mesmo o próprio disco, foram personalizadas com ilustrações características da série.

No mundo da música bandas e artistas do mercado nacional e internacional também se jogaram nesse movimento.  Tivemos vários trabalhos lançados em fitas k7 e Lp`s recentemente. Artistas como Elza Soares, Pitty, Nando Reis, Metallica, Selena Gomez, Planet Hemp e Artic Monkeys, formam alguns nomes dessa lista.

Mas por que apostar no antigo? O argumento usado é que esses formatos tem a capacidade de aproximar o ouvinte e a música. Isso por conta de sua sonoridade única que consegue trazer à tona memórias e sensações do passado.

As transformações nesse meio nunca param. É bem provável que daqui alguns anos ou décadas sejam criadas outras formas de se produzir música. O que hoje é moderno poderá ser considerado “vintage” no futuro. Toda a tecnologia que está sendo criada hoje talvez tenha que ser readequado para ganhar um ar “cult” e moderninho. Tudo isso para que não seja deixado de lado. O importante é que todos os envolvidos nessas criações musicais tenham consciência da necessidade de equilíbrio entre intervenção humana e tecnológica. Até porque seria trágico que uma fosse anulada pela outra. A mais prejudicada seria a música, que perderia o seu real valor.

Por Thayná de Souza Santos

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